Com atos em todo o país, 32º Grito dos Excluídos reivindica moradia e fim da escala 6×1

A primeira edição do Grito dos Excluídos e das Excluídas foi em 1995. | Crédito: Divulgação

(Brasil de Fato) Movimentos populares, sindicatos, pastorais sociais, igrejas e organizações da sociedade civil realizam nesta segunda-feira (7) as manifestações da 32ª edição do Grito dos Excluídos e Excluídas em todas as regiões do Brasil.

Os atos unificados ocorrem em praças, ruas e avenidas das capitais e do interior, com o objetivo de apresentar pautas como a garantia de moradia digna, a reforma agrária, a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), o combate ao feminicídio e o fim da escala de trabalho seis por um (6×1).

A mobilização nacional ocorre como um contraponto popular aos desfiles cívico-militares oficiais do Dia da Independência. A atividade propõe refletir sobre a soberania nacional a partir das condições reais de vida, moradia, trabalho e dignidade da classe trabalhadora brasileira.

Na Região Sudeste, os quatro estados têm mobilizações confirmadas nesta segunda-feira e atividades realizadas durante a semana. Em São Paulo, o ato principal ocorre na capital paulista a partir das 9h, com concentração na Praça da Sé, caminhada até o Largo São Francisco e celebração de missa na Catedral da Sé às 12h. No interior do estado, há manifestações em Cajamar, às 9h, no Parque São Roberto; em Mogi das Cruzes, às 9h, na Praça do Rosário; e em São José dos Campos, às 8h, na Praça Afonso Pena.

No Rio de Janeiro, o ato em Petrópolis está agendado para às 9h desta segunda-feira, na Praça do Bosque. No próximo sábado (12), as atividades ocorrem das 9h às 12h, no Pré-Vestibular para Negros e Carentes (PVNC), localizado em Jacarepaguá, na zona oeste da capital fluminense.

Em Minas Gerais, os manifestantes concentram-se em Belo Horizonte às 9h30, na Praça da Rodoviária, com caminhada rumo ao ato político e cultural no Viaduto Santa Tereza. No Espírito Santo, o ato em Vitória ocorre às 8h, na Praça Portal do Príncipe, com caminhada até o Palácio Anchieta. O estado também teve pré-Grito em Colatina na última quinta-feira (3), e mobilização em Cachoeiro de Itapemirim no último sábado (5).

Na Região Nordeste, cinco estados registram programações do movimento. No Ceará, as ações ocorrem nesta segunda-feira em Fortaleza, a partir das 8h, na Praça do Conjunto Tamandaré, no bairro Jangurussu, e em Lagoinha, no município de Quixeré, a partir das 16h. O estado também registrou atos no último sábado (5) em Juazeiro do Norte e na última sexta-feira (4) em Crateús.

Na Bahia, a mobilização de Vitória da Conquista está marcada para as 10h desta segunda-feira, no cruzamento da rua Régis Pacheco com a avenida Integração. A capital, Salvador, realizou a décima edição do “Gritinho” na última sexta-feira (4), na Escola Nossa Senhora de Escada.

Em Alagoas, as atividades em Maceió ocorrem a partir das 8h desta segunda-feira, com concentração na Praça Sinimbu, onde haverá uma celebração ecumênica seguida de passeata. No Maranhão, a programação contou com atividade no último sábado (5), no Seminário Santo Antônio, em São Luís.

Em João Pessoa, para marcar o Grito dos Excluídos, o ato ocorre simultaneamente ao desfile oficial da Semana da Pátria. A partir das 10h, participantes da 32ª edição do movimento devem se concentrar para uma caminhada que pretende levar às ruas reivindicações sociais e trabalhistas.

Na Região Norte, os estados do Pará e do Amazonas concentram as atividades. Em Belém (PA), as ações começaram no último sábado (5), no Dia da Amazônia, com debates no bairro Terra Firme, enquanto em Curuçambaba (PA) a programação abrangeu o último domingo (6) e esta segunda-feira, com a 11ª Marcha da Juventude na Paróquia Nossa Senhora do Pilar. Em Manaus (AM), as manifestações ocorrem das 8h às 17h, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), com feira, ato cultural, missa e caminhada até a Bola do Coroado.

Na Região Sul, o Paraná e o Rio Grande do Sul organizaram seus atos. No Paraná, as mobilizações ocorrem em Curitiba, a partir das 14h30, na Praça Tiradentes, e no litoral do estado, com concentração às 7h30 no Mercado do Peixe, em Matinhos, e ato político às 10h.

No Rio Grande do Sul, as caminhadas acontecem em Porto Alegre, às 9h30, com concentração em frente ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), na rua Coronel Vicente, 282; e em Lajeado, às 15h, com caminhada da Ponte do Arroio Saraquá até o Parque Beira Rio. Em Santa Cruz do Sul, as manifestações ocorrem pela manhã, integradas ao Desfile Cívico local.

Na Região Centro-Oeste, os atos ocorrem no Distrito Federal e no Mato Grosso. Em Brasília (DF), os manifestantes reúnem-se das 9h30 às 12h, na Praça Zumbi dos Palmares, no Plano Piloto. No Mato Grosso, as atividades acontecem em Cuiabá, às 17h30, na Praça Ipiranga; em Cáceres, às 7h, na Comunidade Nossa Senhora de Fátima; e em Rondonópolis, das 8h às 11h, na Cúria Diocesana, após seminário prévio realizado na Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) na última quarta-feira (2).

O Grito dos Excluídos surgiu a partir dos debates da segunda Semana Social Brasileira, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 1993 e 1994, e teve sua primeira edição nacional realizada no dia 7 de setembro de 1995.

A iniciativa, que carrega o tema permanente “Vida em Primeiro Lugar!”, adota para este ano o lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”, conectando as demandas habitacionais e de soberania ao enfrentamento da violência contra as mulheres.

Movimentos sociais no planalto pela continuidade institucional

Movimentos sociais se reuniram ontem (13) no Palácio do Planalto com a presidente da República, Dilma Rousseff e com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Miguel Rossetto. No evento, chamado Diálogo com os Movimentos Sociais, a tônica foi a da defesa da continuidade do mandato de Dilma até 2018 e pelo aprofundamento das mudanças introduzidas nos governos petistas.

A presidente Dilma Rousseff participa do evento Diálogo com os Movimentos Sociais, no Palácio do Planalto. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
A presidente Dilma Rousseff participa do evento Diálogo com os Movimentos Sociais, no Palácio do Planalto. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Os movimentos sociais também demarcaram as diferenças com os que pretendem interromper o mandato de Dilma Rousseff. Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, chamou-os de “golpistas que se utilizam da insatisfação social para impor o seu projeto político e para atacar a democracia”. Segundo Carina Vitral, presidente da UNE, “para ter impeachment precisa ter crime de responsabilidade, e sabemos que, contra a presidenta, não há qualquer indício ou acusação”. O presidente da CUT, Vagner Freitas, disse que “o que se vende hoje no Brasil é a intolerância, o preconceito de classe contra nós. Somos defensores da unidade nacional, de um projeto nacional.”

Pautas sociais

Por outro lado, projetos de interesse dos movimentos sociais também foram debatidos. Raimundo Bonfin, da Central dos Movimentos Populares afirmou que o governo “tem de taxar as grandes fortunas e combater de forma dura a sonegação fiscal”, fazendo menção ainda a manifestações ocorridas este ano em que a sonegação fiscal foi defendida pelos opositores: disse que songação “é corrupção, sim, porque tira dinheiro dos programas sociais e do desenvolvimento econômico.” Também foi defendida a universalidade do Sistema Único de Saúde, o orçamento da educação, o programa Minha Casa, Minha Vida, os povos e comunidades tradicionais.

Por outro lado, foi criticada a “Agenda Brasil“, proposta pelo presidente do Senado Federal, Renan Calheiros. Também foram criticados o presidente da Câmara dos Deputados e a política econômica — personificada no ministro da Fazenda, Joaquim Levy: “Fora já, fora já daqui, o Eduardo Cunha junto com o Levy”, repetiam os presentes.

Senadores independentes

Em outra frente política, também ontem os senadores independentes Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), Cristovam Buarque (PDT-DF), João Alberto Capiberibe (PDT-AP), Lídice da Mata (PSB-BA) e Lasier Martins (PDT-RS) se reuniram com Dilma Rousseff e defenderam a formação de um governo de união nacional. Na ocasião, Dilma elogiou o papel do Senado na crise atual, afirmando que a casa legislativa tem agido como “poder moderador”.

Opinião de Visão Católica

Tanto os movimentos sociais quanto os senadores do PDT, do PSB e até do PSOL defenderam “união nacional”. Mas, sempre de acordo com os seus interesses. Os movimentos sociais, por exemplo, têm acirrado em seu discurso a divisão de classes — que, embora exista e seja vista nas manifestações de rua que vêm ocorrendo ao longo do ano, não tende a produzir bons frutos, ao contrário, pode ter um resultado bastante danoso à democracia e aos interesses dos próprios movimentos sociais. O acirramento dos conflitos políticos tem evidentemente produzido intolerância (como eles mesmos denunciaram), até mesmo com atentados com bombas incendiárias contra sedes do PT e do Instituto Lula.

A violência tem crescido na política brasileira, e está presente especialmente nas manifestações da oposição, com bonecos enforcados, ameaças de magnicídio e atentados terroristas (porque as tentativas de incendiar sedes de instituições adversárias é terrorismo na sua acepção mais pura). E deve ser combatida. Porém, é aconselhável que o combate não se dê pelo acirramento dessa clivagem, já tão danosa, e o discursos dos movimentos sociais têm que ficar atentos a isso. Se pregam a união nacional, então, mesmo demarcando diferenças, não devem seguir verbalmente o caminho que os opositores têm seguido também materialmente.

As falas dos movimentos sociais podem ser lidas com mais detalhes na Agência Brasil.

Cunha quer terceirização a todo custo

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), prometeu hoje (14) votar a qualquer custo o projeto de lei que retira os limites da terceirização. Segundo a Agência Brasil, ele afirmou que amanhã será este o único item da pauta do plenário da Câmara, e que será o único até ser votado, mesmo que demore várias e várias sessões, atrasando a apreciação de outros projetos. Por outro lado, as centrais sindicais e as organizações estudantis prometem manifestações e paralisações.

Tempos Modernos, filme de Charlie Chaplin, retrata a precariedade das condições de trabalho modernas.
Tempos Modernos, filme de Charlie Chaplin, retrata a precariedade das condições de trabalho modernas.

Segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), há uma relação “gritante” entre terceirização, trabalho escravo e acidentes de trabalho. Segundo informação publicada na Rede Brasil Atual, o exemplo é o setor elétrico, onde, de 75 mortes decorrentes de acidentes de trabalho em 2013, 61 foram de terceirizados (81%). Também o salário dos terceirizados é um quarto menor que o dos contratados diretamente.

O movimento estudantil se soma ao coro das centrais sindicais, “Estamos com as centrais sindicais porque somos os futuros trabalhadores do país e a terceirização é um grande problema. O terceirizado ganha menos que o efetivo. A terceirização vai diminuir direitos trabalhistas e precarizar as condições de trabalho. É uma medida para os empresários, que vão lucrar mais, não para o trabalhador”, afirmou à Rede Brasil Atual a presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Bárbara Bahia.

Também organizações católicas participarão da mobilização. Além de serem contrárias à ampliação da terceirização e à redução da maioridade penal, essas organizações trarão à pauta a reforma política e a implementação do Imposto sobre Grandes Fortunas, que já está previsto na Constituição Federal, mas nunca chegou a ser regulamentado.

Opinião de Visão Católica

Além da necessidade de proteção dos elementos mais frágeis da sociedade — no caso, os trabalhadores e os adolescentes —, algumas manifestações no último dia 12 deixaram clara a necessidade de se procurar outra pauta para a política brasileira, que não aquelas defendidas pelo presidente da Câmara e pelos movimentos políticos e partidários de direita.

Faixa contra padres marxistas
Faixa contra frei Gilvander
Faixa contra a CNBB
Faixas contra clérigos e a CNBB expõe o ódio de manifestantes à doutrina social da Igreja. Fotos: autor desconhecido. Fonte: Viomundo.

Além das velhas frases pela volta da ditadura militar (que perseguiu a Igreja Católica, de religiosos a bispos, como o servo de Deus dom Hélder Câmara), chamo a atenção para frases colocadas na casa dos bispos de Belo Horizonte. As faixas diziam: “Fora CNBB comunistas bolivarianos”, “‘Frei’ Gilvander você foi despejado da Igreja vá invadir terras em Cuba” e “Padres marxistas vcs. sao maus e perversos”. As frases foram escritas assim mesmo. Até mesmo uma agência de comunicação supostamente católica entrou na onda, e seu coordenador em língua portuguesa escreveu: “Fora Reforma política promovida pela CNBB”, misturando o protesto e o domingo da Divina Misericórdia. Mas, faltou misericórdia aos manifestantes desse domingo.

Sinagoga destruída por nazistas em Munique. A violência política foi a marca da ascensão dos nazistas ao poder. (Foto: autor desconhecido. Fonte: Wikimedia)
Sinagoga destruída por nazistas em Munique. A violência política foi a marca da ascensão dos nazistas ao poder. (Foto: autor desconhecido. Fonte: Wikimedia)

Atacar a CNBB (que propõe a reforma política como meio para se combater a corrupção) e padres ligados às camadas mais frágeis da população (caso do frei Gilvander Luís Moreira, ligado à Comissão Pastoral da Terra), junto com “ensaios sensuais” em plena manifestação, ou a defesa do assassinato político demonstram quem são e a quem se uniram os manifestantes contrários ao atual governo. Os bispos são ordenados para governar a Igreja (I Tm 3,5). Atacar os bispos brasileiros e se dizer católico é enganação. A banalização do sexo e a violência são diabólicas.

(Foto de destaque: Eduardo Cunha. Por Alex Ferreira/Câmara dos Deputados)