Quem como Deus? A mulher

Repercutiu esta semana um vídeo em que um frei famoso afirma que ao homem foi dada a liderança, e que a mulher não pode querer “poder” nenhum. Porém, ele faz sua análise sob uma ótica mundana, e não sob a perspectiva cristã. Fala em “guerra dos sexos”, critica o empoderamento feminino. Segundo ele, “é claro que Deus deu ao homem a liderança” — contudo, a única liderança que Deus deu ao homem é a liderança de Cristo: “E vós, maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25). O marido deve fazer como Cristo, servindo inteiramente a sua esposa, entregando-se completamente a ela e nada retendo para si, mesmo que isso signifique dar a própria vida (v. Fl 2,5-8). A submissão que se espera no cristianismo é a submissão mútua, o serviço recíproco: “Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5,21).

Quadro de vídeo repercutindo fala de Frei GIlson que deprecia as mulheres. (Twitter de Esther Carvalho)

O frei apela para uma leitura parcial e equivocada de um versículo do Gênesis (2,18) para dizer que o único papel da mulher seria o de “auxiliar”, no sentido de uma pessoa em patamar inferior. Contudo, o texto bíblico coloca a mulher como semelhante ao homem: “Então o homem exclamou: ‘Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Será chamada mulher ´[em hebraico isha], porque foi tirada do homem [ish]!” (Gn 2,23) De fato, a Vulgata aplica ao versículo citado pelo “religioso” a palavra “similem”, isto é, “semelhante” em latim, como tradução do hebraico neged, que deve ser traduzido como “contraparte” ou “complemento” (a Bíblia de Jerusalém diz “que lhe corresponda”). Efetivamente, na sequência dessa narrativa da criação, Deus faz passar diante do homem todos os animais, teologicamente inferiores, mas nenhum lhe correspondeu (Gn 2,19s). Por isso, a mulher foi feita exatamente do mesmo material que o homem (da costela de Adão, na linguagem bíblica — Gn 2, 21s), formando uma correspondência perfeita, porque estava ao seu lado, e não abaixo dele. Portanto, a interpretação que a coloca abaixo do homem vem de um conhecimento restrito da própria língua portuguesa, que não tem em “auxiliar” somente “a pessoa que tem papel secundário em determinada atividade”, mas antes a “pessoa associada a outra, para ajudá-la em seu trabalho ou em suas funções”: é quem ajuda, quem acode, quem socorre (Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2ª reimpressão).

Com efeito, a própria Igreja Católica coloca a mulher na posição de Deus em relação ao homem, justamente por ser seu “auxiliar”, isto é, como Deus que vem em auxílio da humanidade:

Que o homem e a mulher tenham sido criados um para o outro, a sagrada Escritura o afirma: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). A mulher, “carne de sua carne”, isto é, igual a ele, bem próxima dele, lhe foi dada por Deus como um “auxílio”, representando, assim, “Deus, em quem está o nosso socorro”. (Catecismo da Igreja Católica, 1605)

Portanto, nenhuma interpretação que coloque a mulher como criatura inferior ao homem pode ser admitida: a auxiliar é como Deus, que socorre a humanidade.