Cristo ressuscitou! Aleluia!

Irmãos caríssimos, Cristo ressuscitou! Cantemos com toda a Igreja: aleluia, aleluia! Proclamemos em alta voz: o crucificado, aquele que o mundo desprezou, hoje vive e reina eternamente em sua glória!

Não pude, ainda, colocar no ar a nova versão do Caritas in Veritate – faltam apenas alguns ajustes. Entretanto, deixo-vos a mensagem Urbi et orbi do papa Francisco por ocasião desta Páscoa, na qual nos pede para rezar por muitos povos que precisam também viver suas páscoas, suas passagens da escravidão para a liberdade, da morte para a vida. Uma feliz Páscoa a todos!

Mensagem Urbi et Orbi do Santo Padre Francisco – Páscoa de 2014

Amados irmãos e irmãs, boa e santa Páscoa!

Ressoa na Igreja espalhada por todo o mundo o anúncio do anjo às mulheres: «Não tenhais medo. Sei que buscais Jesus, o crucificado; não está aqui, pois ressuscitou (…). Vinde, vede o lugar onde jazia» ( Mt 28, 5-6).

Mensagem “Urbi et orbi” do papa Francisco por ocasião da Páscoa de 2014

Este é o ponto culminante do Evangelho, é a Boa Nova por excelência: Jesus, o crucificado, ressuscitou! Este acontecimento está na base da nossa fé e da nossa esperança: se Cristo não tivesse ressuscitado, o cristianismo perderia o seu valor; toda a missão da Igreja via esgotar-se o seu ímpeto, porque dali partiu e sempre parte de novo. A mensagem que os cristãos levam ao mundo é esta: Jesus, o Amor encarnado, morreu na cruz pelos nossos pecados, mas Deus Pai ressuscitou-O e fê-Lo Senhor da vida e da morte. Em Jesus, o Amor triunfou sobre o ódio, a misericórdia sobre o pecado, o bem sobre o mal, a verdade sobre a mentira, a vida sobre a morte.

Por isso, nós dizemos a todos: «Vinde e vede». Em cada situação humana, marcada pela fragilidade, o pecado e a morte, a Boa Nova não é apenas uma palavra, mas é um testemunho de amor gratuito e fiel: é sair de si mesmo para ir ao encontro do outro, é permanecer junto de quem a vida feriu, é partilhar com quem não tem o necessário, é ficar ao lado de quem está doente, é idoso ou excluído… « Vinde e vede»: o Amor é mais forte, o Amor dá vida, o Amor faz florescer a esperança no deserto.

Com esta jubilosa certeza no coração, hoje voltamo-nos para Vós, Senhor ressuscitado!

Ajudai-nos a procurar-Vos para que todos possamos encontrar-Vos, saber que temos um Pai e não nos sentimos órfãos; que podemos amar-Vos e adorar-Vos.

Ajudai-nos a vencer a chaga da fome, agravada pelos conflitos e por um desperdício imenso de que muitas vezes somos cúmplices.

Tornai-nos capazes de proteger os indefesos, sobretudo as crianças, as mulheres e os idosos, por vezes objecto de exploração e de abandono.

Fazei que possamos cuidar dos irmãos atingidos pela epidemia de ébola na Guiné Conacri, Serra Leoa e Libéria, e daqueles que são afectados por tantas outras doenças, que se difundem também pela negligência e a pobreza extrema.

Consolai quantos hoje não podem celebrar a Páscoa com os seus entes queridos porque foram arrancados injustamente dos seus carinhos, como as numerosas pessoas, sacerdotes e leigos, que foram sequestradas em diferentes partes do mundo.

Confortai aqueles que deixaram as suas terras emigrando para lugares onde possam esperar um futuro melhor, viver a própria vida com dignidade e, não raro, professar livremente a sua fé.

Pedimo-Vos, Jesus glorioso, que façais cessar toda a guerra, toda a hostilidade grande ou pequena, antiga ou recente!

Suplicamo-Vos, em particular, pela Síria, a amada Síria, para que quantos sofrem as consequências do conflito possam receber a ajuda humanitária necessária e as partes em causa cessem de usar a força para semear morte, sobretudo contra a população inerme, mas tenham a audácia de negociar a paz, há tanto tempo esperada.

Jesus glorioso, pedimo-vos que conforteis as vítimas das violências fratricidas no Iraque e sustenteis as esperanças suscitadas pela retomada das negociações entre israelitas e palestinianos.

Imploramo-Vos que se ponha fim aos combates na República Centro-Africana e que cessem os hediondos ataques terroristas em algumas zonas da Nigéria e as violências no Sudão do Sul.

Pedimos-Vos que os ânimos se inclinem para a reconciliação e a concórdia fraterna na Venezuela.

Pela vossa Ressurreição, que este ano celebramos juntamente com as Igrejas que seguem o calendário juliano, vos pedimos que ilumine e inspire as iniciativas de pacificação na Ucrânia, para que todas as partes interessadas, apoiadas pela Comunidade internacional, possam empreender todo esforço para impedir a violência e construir, num espírito de unidade e diálogo, o futuro do País.Que eles como irmãos possam cantar Хрhctос Воскрес.

Pedimo-Vos, Senhor, por todos os povos da terra: Vós que vencestes a morte, dai-nos a vossa vida, dai-nos a vossa paz! Queridos irmãos e irmãs, feliz Páscoa!

Saudação

Queridos irmãos e irmãs,

Renovo os meus votos de feliz Páscoa a todos vós reunidos nesta Praça, vindos de todas as partes do mundo. Estendo as minhas felicitações pascais a todos que, de diversos países, estão conectados através dos meios de comunicação social. Levai às vossa famílias e às vossas comunidades o feliz anúncio que Cristo nossa paz e nossa esperança ressuscitou!

Obrigado pela vossa presença, pela vossa oração e pelo vosso testemunho de fé. Um pensamento particular e de reconhecimento pelo dom das belíssimas flores, oriundas dos Países Baixos. Feliz Páscoa para todos!

A vida do cristão

Nesse tempo de quaresma, somos convidados à conversão, isto é, a volvermo-nos para Deus e orientarmo-nos segundo ele. Nesse sentido são interessantes as leituras das horas canônicas para hoje. Nas laudes (pela manhã):

Vós vistes o que fiz aos egípcios, e como vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim. Portanto, se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos, porque minha é toda a terra. E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. (Ex 19,4-6a)

Nas vésperas (no fim da tarde):

Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito. (Rm 12,1s)

Na primeira leitura, temos uma recordação da eleição de Israel dentre todas as nações, para que seja a ligação entre Deus e a humanidade. Israel foi tirado do Egito, como que pinçado e transposto para a terra prometida, onde deveria permanecer pela eternidade, com a única condição de seguir a Aliança que Deus lhe ofereceu. Essa Aliança, esse tratado entre Deus e seu povo, era praticamente unilateral: Deus ofereceu o território, a soberania, a justiça e o direito; Israel apenas deveria aceitar, tornando-se assim a referência para todas as nações.

Eis o que vai acontecer no fim dos tempos,
que o monte onde está a casa do Senhor
será erguido muito acima de outros montes,
e elevado bem mais alto que as colinas.

Para ele acorrerão todas as gentes,
muitos povos chegarão ali dizendo:
“Vinde, subamos a montanha do Senhor,
vamos à casa do Senhor Deus de Israel,

para que ele nos ensine seus caminhos,
e trilhemos todos nós suas veredas.
Pois de Sião a sua Lei há de sair,
Jerusalém espalhará sua Palavra”.

Será ele o Juiz entre as nações
e o árbitro de povos numerosos.
Das espadas farão relhas de arado
e das lanças forjarão as suas foices.

Uma nação não se armará mais contra a outra,
nem haverão de exercitar-se para a guerra.
Vinde, ó casa de Jacó, vinde, achegai-vos,
caminhemos sob a luz de nosso Deus! (Is 2,2-5)

Essa é a Aliança oferecida por Deus à casa de Jacó, Israel. Bastava aceitar o que Deus lhe entregava, e Deus lhe entregava tudo. Agir em conformidade com a aliança era o que bastava para reinar por todo o sempre sobre a terra da promessa. Para que todas as nações não mais guerreassem, mas se dirigissem a Israel e a seu Deus.

Mas, Israel não agiu conforme o direito e a justiça que Deus lhes entregou, não realizou o “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”, o “culto espiritual”. Por sua dureza de coração, quando o Filho do Deus Vivo, Jesus Cristo, veio ao mundo, para os que eram seus, não foi recebido. Contudo, os que o receberam, estes foram transformados em filhos de Deus (Jo 1,11s), transfigurados com Jesus Cristo e nele moldados. Não nasceram mais do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (Jo 1,13). Assim, não estão mais sujeitos à carne ou a homem, mas a Deus. Devem distinguir o que é bom, o que agrada a Deus, o que é perfeito – isto é, a vontade de Deus – e agir em conformidade. Deus nos retirou dentre os pecadores, e nos fez uma Igreja, uma nação santa, um reino de sacerdotes para que o império de sua vontade se espalhe sobre toda a terra. Assim ajamos. Amém.

Caritas in Veritate será renovado

Irmãos, o Caritas in Veritate está já há algum tempo sem atualização (desde o dia de Jesus Cristo, Rei do Universo, ano passado). Não por falta de vontade de atualizar, mas por limitações alheias à minha vontade. Hoje, no entanto, sou grato a Deus por me oportunizar também a possibilidade de renovar o site, que ganhará novo formato, com um blog mais ágil e leve, mas também com estudos mais aprofundados sobre teologia e história da Igreja (afinal de contas, devo aproveitar a bênção de ser historiador, não é verdade?).

Nesse período de quaresma, que é tempo de conversão, e portanto de exame de consciência, devo examinar a forma de levar o melhor conteúdo religioso até vocês e assim exercer a teologia que venho estudando, para que dê frutos. Com a renovação pascal, deve também este trabalho ser renovado para propagar a Boa Nova que é Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16,16), verbo divino que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14), que se tornou semelhante a nós em tudo, menos no pecado (v. Hb 4,15), e que sofreu, morreu e ressuscitou por amor a nós, para nos dar a vida eterna por meio de sua carne e de seu sangue (Jo 6,22-59). Amém!

Jesus Cristo, Rei do Universo

Hoje, domingo da 34.ª semana do tempo comum, último domingo antes do advento, comemoramos Jesus Cristo, Rei do Universo. É o encerramento do ano litúrgico, que se iniciou com a espera da vinda do Filho do Homem, seu nascimento, sua adoração por todas as nações e pelos anjos, que passou por seu ministério, sua paixão, morte e ressurreição, com que foi tragada a morte para longe de nós, de forma que com ele hoje vivemos e comemoramos e pedimos que venha o seu reinado. Vejamos algumas palavras de Orígenes, presbítero do século III, a esse respeito, conforme a Liturgia das Horas para hoje:

O Reino de Deus, conforme as palavras de nosso Senhor e Salvador, não vem visivelmente, nem se dirá: Ei-lo aqui ou ei-lo ali; mas o reino de Deus está dentro de nós (cf. Lc 17,21), pois a palavra está muito próxima de nossa boca e em nosso coração (cf. Rm 10,8). Donde se segue, sem dúvida nenhuma, que quem reza pedindo a vinda do reino de Deus pede – justamente por já ter em si um início deste reino – que ele desponte, dê frutos e chegue à perfeição.

Pois Deus reina em todo o santo e quem é santo obedece às leis espirituais de Deus, que nele habita como em cidade bem administrada. Nele está presente o Pai e, junto com o Pai, reina Cristo na pessoa perfeita, segundo suas palavras: Viremos a ele e nele faremos nossa morada (Jo 14,23).

Então o reino de Deus, que já está em nós, chegará por nosso contínuo adiantamento à plenitude, quando se completar o que foi dito pelo Apóstolo: sujeitados todos os inimigos, Cristo entregará o reino a Deus e Pai, a fim de que Deus seja tudo em todos (cf. 1Cor 15,24.28). Por isto, rezemos sem cessar, com aquele amor que pelo Verbo se faz divino; e digamos a nosso Pai que está nos céus: Santificado seja teu nome, venha o teu reino (Mt 6,9-10).

Pedindo a Deus que seu reino se faça presente em nós desde já e eternamente, oremos:

Vinde Espírito Santo, enchei os corações de vosso fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor.
V. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado.
R. E renovareis a face da terra.
Oremos: ó Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas, segundo o mesmo Espírito, e gozemos sempre da sua consolação. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

No princípio era o Verbo…

Há grupos que não acreditam que Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado, seja Deus. No entanto, vejamos:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus. (Jo 1,1)

Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος. (κατα Ιωαννην 1,1)

[shareaholic app=”recommendations” id=”244359″]

No princípio: na origem. Sem complemento, significa “na origem de tudo”. Aliás, palavra grega (ἀρχή, arqué) muito semelhante à portuguesa. Em hebraico, רֵאשִׁית (bereshit), como em Gênesis 1,1: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” – aliás, foi justamente a palavra arqué que os sábios judeus utilizaram para traduzir Gn 1,1 para o grego (Ἐν ἀρχῇ ἐποίησεν ὁ θεὸς…). Portanto, trata-se daquele princípio anterior à criação do céu e da terra, ou seja, antes de toda criação. Naquele princípio, “era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e Deus era o Verbo”.

Há grupos que negam a divindade de Jesus Cristo. Deus, o todo-poderoso, não teria o poder de tomar para si a natureza humana. Se Jesus não fosse Deus, onde estaria no princípio, quando ainda não existiam céu e terra? O Verbo não passou a existir com a criação, mas já existia, e estava com Deus, e era Deus.

Com efeito, Deus Pai “nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos” (Ef 1,4). “Ele existe antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem nele” (Cl 1,17), “nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por ele e para ele” (Cl 1,16). “Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito” (Jo 1,3). “Antes da criação do mundo” (πρὸ καταβολῆς κόσμου), “existe antes de todas as coisas” (αὐτός ἐστιν πρὸ πάντων), “todas as coisas subsistem nele” (τὰ πάντα ἐν αὐτῷ συνέστηκεν), “nele foram criadas todas as coisas” (ἐν αὐτῷ ἐκτίσθη τὰ πάντα), “tudo foi criado por ele e para ele” (τὰ πάντα δι’ αὐτοῦ καὶ εἰς αὐτὸν ἔκτισται), “tudo foi feito por ele” (πάντα δι’ αὐτοῦ ἐγένετο), “sem ele nada foi feito” (χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἕν). Com efeito, Jesus Cristo é o “faça-se” (Gn 1) de Deus na criação do mundo (cf. Sb 9,1; Sl 33[32],6), é a enunciação do conhecimento de Deus Pai (Jo 1,1-18; Sb 7,25-27), por meio do qual ele cria tudo e faz tudo (v. Jo 1,3; Jo 5,19-30). Só Deus existe por si mesmo, e Jesus Cristo existe por si mesmo (cf. Jo 5,26). Ele existe antes de tudo, e só Deus existe antes de tudo.

Imitando Cristo (6)

Livro I – Avisos úteis para a vida espiritual

Capítulo 6 – Das afeições desordenadas

1. Todas as vezes que o homem deseja alguma coisa desordenadamente, torna-se logo inquieto. O soberbo e o avarento nunca sossegam; entretanto, o pobre e o humilde de espírito vivem em muita paz. O homem que não é perfeitamente mortificado facilmente é tentado e vencido, até em coisas pequenas e insignificantes. O homem espiritual, ainda um tanto carnal e propenso à sensualidade, só a muito custo poderá desprender-se de todos os desejos terrenos. Daí a sua freqüente tristeza, quando deles se abstém, e fácil irritação, quando alguém o contraria.

2. Se, porém, alcança o que desejava, sente logo o remorso da consciência, porque obedeceu à sua paixão, que nada vale para alcançar a paz que almejava. Em resistir, pois, às paixões, se acha a verdadeira paz do coração, e não em segui-las. Não há, portanto, paz no coração do homem carnal, nem no do homem entregue às coisas exteriores, mas somente no daquele que é fervoroso e espiritual.

Quantas vezes procuramos a paz e não achamos! Procuramos a paz cuidando de nossa saúde, procurando um bom emprego, divertindo-nos com os amigos… Isso tudo é bom, mas não garante paz. Outras vezes, procura-se paz escapando da vida real, entregando-se à busca desenfreada de prazer no sexo “livre”, nas drogas, na acumulação de bens materiais, na compra do que há de mais novo, ou do que está na moda. Isso muito menos garante a paz.

A saúde um dia se abala, o emprego se perde ou estressa, os amigos vão e vem… O sexo passa a ser uma necessidade sempre urgente, aprisionando e esvaziando, em vez de complementando, as drogas viciam e debilitam, os bens materiais nunca são suficientes, sempre surge algo mais novo ou a moda muda… Procuramos em nossa própria razão ou em nossas próprias afeições aquilo que nos satisfaria eternamente, mas não podemos encontrar satisfação permanente no que é passageiro e limitado.

“Bem-aventurado aquele que tem coração de pobre”! (Mt 5,3) Aquele que não se apega às coisas criadas, mas ao criador que as fez, o Pleno, o Eterno, de quem se origina toda existência e todo bem, é ele quem pode saciar a nossa sede, preencher a nossa falta. “Em verdade vos declaro: todo aquele que deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna.” (Mt 19,28a.29)

As coisas criadas jamais saciam nossa sede. Quando bebemos, logo precisamos beber mais. Quando comemos, logo precisamos comer mais. Quando possuímos, logo precisamos possuir mais. A água que bebemos se transforma em suor e urina. O alimento que comemos se transforma na energia que alimenta nosso corpo, ou é eliminado nas fezes. O que possuímos se desgasta e se perde. Onde, então, poderemos saciar nossa sede de sermos plenos e verdadeiramente vivos?

“Respondeu-lhe Jesus: ‘Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede, mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna’.” (Jo 4,13s) É Deus quem pode nos saciar na “esperança da vida do mundo que há de vir” (Símbolo Niceno-Constantinopolitano). Devemos, então, deixar para trás os nossos bens e depois seguir Jesus (Mt 19,21), o único caminho que leva ao Pai (Jo 14,6). Não demos, então, mais importância às criaturas que ao criador. Se queremos receber o bem até à plenitude, devemos nos entregar a Deus. “Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos” (Mt 19,17bc).

Uma lei que legalizaria o aborto?

No dia primeiro deste mês foi promulgada a lei n.º 12.845/2013, que trata do “atendimento obrigatório e integral de pessoas em situação de violência sexual”. Vejamos seu texto:

Art. 1o Os hospitais devem oferecer às vítimas de violência sexual atendimento emergencial, integral e multidisciplinar, visando ao controle e ao tratamento dos agravos físicos e psíquicos decorrentes de violência sexual, e encaminhamento, se for o caso, aos serviços de assistência social.

Art. 2o Considera-se violência sexual, para os efeitos desta Lei, qualquer forma de atividade sexual não consentida.

Art. 3o O atendimento imediato, obrigatório em todos os hospitais integrantes da rede do SUS, compreende os seguintes serviços:
[…]
IV – profilaxia da gravidez;

O atendimento integral à vítima de violência sexual (mesmo que não seja crime de estupro) é evidentemente necessário e bom. Contudo, o que deve ser realmente entendido como “atendimento integral”? Nem tudo o que está na lei.

O aborto continua sendo crime, ainda que, de maneira igualmente criminosa, o STF tenha estendido a ausência de punição a casos que a lei não prevê. Se considerarmos apenas o código penal, nenhum médico poderia realizar aborto no Brasil, pois todo aborto provocado é crime, mesmo que não possa haver punição nos casos previstos. Para evitar problemas com o código penal, a lei n.º 12.845/2013 traz o termo “profilaxia da gravidez”. Mas, o que é isso, afinal?

“Profilaxia”, a princípio, é a prevenção de doenças ou a preservação da saúde. Trata-se, portanto, de transformar em “doença” uma situação muito especial e que exige cuidados, mas que não é um funcionamento anormal do organismo – ao contrário, é esperado que a mulher saudável possa engravidar mediante relação sexual. Há, como se vê, uma inversão de valores, que transforma o positivo em negativo.

Além disso, o que poderia ser feito para a “profilaxia” da gravidez? Se a mulher já ovulou e o óvulo já perdeu seu poder de gerar uma nova vida mediante a fecundação por um espermatozóide, não há o que ser feito, pois não ocorrerá gestação. Se a mulher ainda não ovulou, pode-se induzir quimicamente a infertilidade. Se, porém, a mulher está fértil durante a violência sexual e a ovulação ocorreu antes da chegada ao serviço de saúde, não há o que se possa fazer.

Alguém poderia argumentar: mas e a pílula do dia seguinte? Efetivamente, ela pode retardar ou impedir a ovulação, além de alterar o muco cervical – até aí, semelhante a qualquer esterilização química.

Foto de embrião
Embrião humano com 9 semanas de gestação

Porém, ela também impede que a blástula penetre o endométrio (camada do útero que o bebê recém-gerado penetra) e ali se fixe, o que levaria, sendo um ser humano saudável, ao prosseguimento do desenvolvimento com a transformação em embrião, depois feto, bebê, criança, adolescente, adulto e idoso.
Quer dizer, a pílula do dia seguinte, utilizada quando o óvulo pode ter sido fecundado, é um método abortivo, uma forma de matar um ser humano desprotegido.

Infelizmente, a sociedade, vitimada por uma propaganda enganosa, não tem compreendido isto. Tratam o ser humano como um objeto descartável apenas porque não nasceu. Mas, se fosse assim, por que o aborto natural ou o óbito fetal causariam tanta dor em quem os sofre? O natimorto “morreu”, “foi a óbito”, recebe uma certidão no cartório, inscrita no livro auxiliar de óbitos, e seu “decesso” deve ser sepultado. Isso tudo se fala ou se faz com seres humanos, não com coisas outras. Matar um zigoto, uma mórula, um embrião porque o sexo não foi consentido é matar um ser humano pleno, que se desenvolverá em feto e depois em nenê, como uma criança se desenvolve em adulto, e um adulto se desenvolve em velho.

A lei efetivamente traz esse ponto profundamente negativo: trata a gestação de um novo ser humano como doença e, porque a sociedade aceita a pílula do dia seguinte como um método supostamente não-abortivo (enganada que está pela propaganda), mesmo matando o embrião por impedir sua fixação no útero, a lei assim permite o aborto.

Imitando Cristo (5)

Livro I – Avisos úteis para a vida espiritual

Capítulo 5 – Da leitura das Sagradas Escrituras

1. Nas Sagradas Escrituras devemos buscar a verdade, não a eloqüência. Todo livro sagrado deve ser lido com o mesmo espírito que o ditou. Nas escrituras devemos antes buscar nosso proveito que a sutileza de linguagem. Tão grata nos deve ser a leitura dos livros simples e piedosos, como a dos sublimes e profundos. Não te mova a autoridade do escritor, se é ou não de grandes conhecimentos literários; ao contrário, lê com puro amor à verdade. Não procures saber quem o disse, mas considera o que se diz.

2. Os homens passam, mas a verdade do Senhor permanece eternamente (Sl 116[117],2). De vários modos nos fala Deus, sem acepção de pessoas. A nossa curiosidade nos embaraça, muitas vezes, na leitura das Escrituras; porque queremos compreender e discutir o que se devia passar singelamente. Se queres tirar proveito, lê com humildade, simplicidade e fé, sem cuidar jamais do renome de letrado. Pergunta de boa vontade e ouve calado as palavras dos santos; nem te desagradem as sentenças dos velhos, porque eles não falam sem razão.

Quantos teólogos caíram nessa armadilha! Quantos julgaram conhecer a verdade e semearam o erro! Isso vem já dos primeiros tempos da Igreja, quando os apóstolos tinham de exortar as comunidades a ouvir aqueles que Deus constituíra transmissores da palavra e não dar ouvido a falsos evangelhos (v.g. Gl 1,1-8). Se confiamos apenas na nossa própria razão, não somos capazes de compreender o anúncio de Deus, porque Deus é infinitamente maior que a nossa razão.

Quantas vezes Deus nos falou pelos iletrados (v. Mt 11,25; I Cor 1,26-28)! pois a Sabedoria de Deus é loucura para os homens (I Cor 1,18ss). No entanto, se queremos que nossa razão alcance Deus – o que é louvável -, então devemos nos deixar guiar pela fé. A teologia, na verdade, não é mais que a fé a procurar a compreensão do mistério divino – o mistério do Filho do Deus vivo (Mt 16,16), que se fez homem para que conheçamos o Pai e tenhamos a vida eterna (Jo 17,23).

A teologia é o intelecto que se deixa guiar pelo Espírito de Deus, para que o próprio Deus indique, pela fé, o caminho da verdadeira ciência. Para isso, no entanto, é necessária a humildade daquele que se deixa guiar, mesmo sabendo ver – porque ver não é apenas questão de ter olhos saudáveis. Vê bem aquele que compreende que, por trás das coisas que percebemos com os sentidos, há um sentido que se revela em Cristo – ele que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6), pois é o único caminho que leva a conhecer o Pai (Mt 11,27), e conhecer Deus é a vida eterna (Jo 17,23).

Igreja peregrina

Faz tempo que não escrevo aqui, e não há tempo melhor para voltar – em plena Jornada Mundial da Juventude, da qual não posso participar pessoalmente, mas que tento acompanhar pela Rede Vida. Muito se fala sobre peregrinos nestes dias, incluindo o próprio papa Francisco, que se fez peregrino ao Rio de Janeiro e a Aparecida. Hoje (ainda) é dia de São Tiago, apóstolo, irmão de João. Nascido em Betsaida, foi o primeiro a governar a Igreja em Jerusalém e também o primeiro apóstolo a testemunhar a fé com a morte a mando de Herodes Agripa.

As laudes de hoje traziam a leitura da carta aos Efésios:

Já não sois mais estrangeiros nem migrantes, mas concidadãos dos santos. Sois da família de Deus. Vós fostes integrados no edifício que tem como fundamento os apóstolos e os profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal. É nele que toda a construção se ajusta e se eleva para formar um templo santo no Senhor. E vós também sois integrados nesta construção, para vos tornardes morada de Deus pelo Espírito. (Ef 2,19-22)

O que esse texto diz é simples: onde quer que estejamos, estamos em nossa terra, pois não somos mais do mundo (Jo 17,16), e sim “concidadãos dos santos”, isto é, cidadãos do Reino de Deus. Vivemos desde já essa realidade (Jo 17,13.20-24), de forma que contamos com o auxílio de nossos irmãos que já não estão nesse mundo, ao qual também nós não pertencemos, o qual deixaremos um dia para nos juntar plenamente à felicidade celeste.

Já não há migrante, já não há estrangeiro, já não há quem seja natural deste mundo, pois nossa natureza, renovada pelo Batismo (2Cor 5,17), é agora de partícipes da natureza divina (2Pd 1,4; v. Rm 6,2-14). A Igreja toda é peregrina e, onde quer que esteja – onde quer que esteja cada um de seus membros -, estará sempre no Reino de Deus, e jamais pertencerá a este mundo dominado pelas trevas (Ef 6,12). Somos do céu, ainda que estejamos hoje no mundo. Não nos contentamos com este mundo, mas somos testemunhas da realidade futura, que já vivemos com nossa cidadania celeste.

O papa Francisco I

Papa Francisco IA essa hora, muitas palavras já foram ditas sobre o novo papa, Francisco I. Alguns o elogiaram, outros já o criticaram. Muito também já falaram sobre o que ele representa para a Igreja, conforme a vontade de cada um que comenta. Peço licença para fazer uma breve observação dos fatos desde o último pontificado.

O papa emérito, Bento XVI, desde o princípio tentou abrir a Igreja para o mundo, no sentido de não esconder as dificuldades que ela vive, a cada dia, desde quando foi fundada por Jesus Cristo. Liberou o acesso aos documentos do arquivo vaticano até o pontificado de Pio XI, submeteu-se a entrevista televisiva, submeteu-se também à entrevista que se tornou o livro Luz do Mundo, onde tratou dos temas mais polêmicos, endureceu o tratamento dado aos que abusam de menores. Tudo isso provou uma grande humildade, transmitida a toda a Igreja, ainda que nem todos os membros do corpo de Cristo o tenham seguido no mesmo ritmo.

Porém, a maior renovação, o maior gesto de humildade de Bento XVI, foi sua renúncia. Não se apegou a um cargo proeminente, a ser o vigário de Cristo, mas demonstrou ser verdadeiramente o servo dos servos de Deus. Aí é que vemos uma grande continuidade no novo papa, Francisco I. Não apenas no nome escolhido, que nos remete a S. Francisco de Assis (embora também possa remeter a S. Francisco Xavier ou a S. Francisco de Sales). É verdade, S. Francisco foi um grande exemplo de humildade, tendo deixado para trás uma grande fortuna para abraçar a pobreza evangélica, reformando profundamente a Igreja com seu exemplo. Ele também intercedeu e pediu a intercessão pelo seu predecessor. Em seguida, pediu que o povo rezasse por ele, e curvou-se perante o povo, para receber a bênção de Deus. Também se identificou decididamente com o povo romano, que ele guia como bispo daquela cidade, e com o povo de todo o mundo, que ele guia como sucessor de Pedro e pastor universal.

Vemos, nos gestos, nas palavras e no silêncio de Francisco I a humildade do servo dos servos de Deus, escancarada numa personalidade que já se demonstra cativante, mas também escondida em gestos que praticava em Buenos Aires, como preparar as próprias refeições, ou usar o transporte público. Se Cristo se humilhou, tornando-se homem e sofrendo a morte mais terrível na cruz (Fl 2,5-11), o vigário de Cristo deve seguir o mesmo caminho. É este caminho que o papa Francisco parece estar desde já trilhando.