O Evangelho dos pobres e as eleições no Brasil

Hoje, segunda-feira da primeira semana da Quaresma, o Evangelho anuncia:

‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’ Então o Rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo, que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!’ (Mt 25, 37-40)

Não é à toa que o trecho de hoje foi citado seis vezes no Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Trata-se de um chamamento à ação em favor daqueles que são os irmãos diletos de Jesus. “São os preferidos do Evangelho, os herdeiros do Reino”, ensina o papa Leão XIV. “É neles que Cristo continua a sofrer e a ressuscitar. É neles que a Igreja reencontra o chamamento a mostrar a sua realidade mais autêntica”. (Exortação apostólica Dilexi te, n. 76)

Os tempos de penitência, como a Quaresma, são tempos adequados para exercícios espirituais, penitências e privações voluntárias, como o jejum e a esmola (Catecismo da Igreja Católica, n. 1438). Contudo, viver a caridade apenas como esmolas durante a Quaresma não é suficiente. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja ensina:

A solidariedade deve ser tomada antes de mais nada, no seu valor de princípio social ordenador das instituições, em base ao qual devem ser superadas as “estruturas de pecado”, que dominam as relações entre as pessoas e os povos, devem ser superadas e transformadas em estruturas de solidariedade, mediante a criação ou a oportuna modificação de leis, regras do mercado, ordenamentos. (DSI, n. 193)

Se damos esmola com uma mão, mas com a outra votamos para manter as “estruturas de pecado” de nossa sociedade, tiramos muito mais do que temos a oferecer. E temos eleições este ano nas quais elegeremos presidente, governadores, deputados e senadores, que podem atuar por alterar ou por manter essas estruturas pecaminosas em nossa sociedade. O papa Leão XIV, citando Francisco, é bastante claro em relação a elas:

É necessário, portanto, continuar a denunciar a “ditadura de uma economia que mata” e reconhecer que “enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras”. (Dilexi te, n. 92)

Trocando em miúdos, é preciso regular a economia, garantir direitos aos trabalhadores, e fazer com que os mais ricos contribuam para o bem de toda a população — e eles têm muito mais capacidade de pagar impostos do que qualquer outra pessoa.

Cartaz da Campanha da Fraternidade 2026

Abordando um dos aspectos das estruturas de pecado presentes na sociedade, a campanha da fraternidade de 2026 tem como lema “Fraternidade e Moradia”. Em sua mensagem para a Campanha, o papa Leão XIV recorda que a falta de habitação “deve ser considerada como o sinal e a síntese de uma série de insuficiências econômicas, sociais, culturais ou simplesmente humanas”, uma constatação já feita antes por seu antecessor S. João Paulo II na encíclica Sollicitudo rei socialis. A isso acrescenta:

é meu desejo que a reflexão sobre a dura realidade da falta de moradia digna […] gere em todos a consciência de que a partilha dos dons que o Senhor generosamente nos concede não pode restringir-se a um período do ano, a uma campanha ou a algumas ações pontuais, mas deve ser uma atitude constante, que nos compromete a ir ao encontro de Cristo presente naqueles que não têm onde morar. (Mensagem do papa Leão XIV à Igreja no Brasil por ocasião da Quaresma)

As escolhas nas eleições de 2026, como sempre, serão complexas. Porém, é preciso descartar a “defesa da família” daqueles que condenam famílias à pobreza, reclamam da proteção da mulher, rebaixam a dignidade de famílias diferentes da que exibem e, muitas vezes, gostam tanto de famílias que constituem várias ao mesmo tempo. Também é preciso descartar a “defesa da vida” daqueles que defendem a tortura, a pena de morte e a execução sumária de “suspeitos” pela polícia. Feito isso, veremos os candidatos como realmente são, e não com as fantasias que vestem para o carnaval eleitoral. A partir daí, é possível ver como cada candidato lida com as estruturas de pecado presentes em nossa sociedade.

Dilexi te: diário de leitura (4-5)

CAPÍTULO I

ALGUMAS PALAVRAS INDISPENSÁVEIS

4. Os discípulos de Jesus criticaram a mulher que derramou um perfume muito precioso sobre a sua cabeça: «Para quê este desperdício?» – diziam eles – «Podia vender-se por bom preço e dar-se o dinheiro aos pobres». Mas o Senhor disse-lhes: «Pobres, sempre os tereis convosco; mas a mim nem sempre me tereis» (Mt 26, 8-9.11). Aquela mulher tinha compreendido que Jesus era o Messias humilde e sofredor sobre quem derramar o seu amor: que consolo aquele unguento sobre a cabeça que, dali a poucos dias, seria atormentada pelos espinhos! Era um pequeno gesto, mas quem sofre sabe o quanto é grande mesmo um pequeno sinal de afeto e quanto alívio pode trazer. Jesus compreende isso e confirma a sua perenidade: «Em qualquer parte do mundo onde este Evangelho for anunciado, há de também narrar-se, em sua memória, o que ela acaba de fazer» (Mt 26, 13). A simplicidade daquele gesto revela algo grandioso. Nenhuma expressão de carinho, nem mesmo a menor delas, será esquecida, especialmente se dirigida a quem se encontra na dor, sozinho, necessitado, como estava o Senhor naquela hora.

5. É precisamente nesta perspectiva que o afeto pelo Senhor se une ao afeto pelos pobres. Aquele Jesus que diz «Pobres, sempre os tereis convosco» (Mt 26, 11), expressa igual sentido quando promete aos discípulos: «Sabei que Eu estarei sempre convosco» (Mt 28, 20). Ao mesmo tempo, vêm-nos à mente aquelas palavras do Senhor: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40). Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação: o contato com quem não tem poder nem grandeza é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história. Nos pobres, Ele ainda tem algo a dizer-nos.

Após falar da importância de reconhecer Jesus Cristo nos pobres e atribulados (n. 1-3), o papa Leão XIV faz uma afirmação fundamental: a relação do cristão com os pobres não é de beneficência, mas de Revelação. Essa afirmação não pode ser subestimada. O cuidado com os pobres não é apenas fazer algo a quem não tem. Nos pobres é Deus que se revela ao mundo, continuando sua pedagogia. Ouso dizer, é uma revelação no espelho: é na relação com os mais frágeis deste mundo que nós mesmos revelamos quem somos, nossas semelhanças e nossas diferenças com Deus que os ama a ponto de ser um deles. E esse será nosso julgamento: “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.” (Mt 25,40)

Foto em destaque: viúva armênia foge com crianças diante de massacres no Império Turco-Otomano no final do século XIX. (Domíno público. Fonte: Wikimedia)

Dilexi te: diário de leitura (1-3)

1. «Eu te amei» (Ap 3, 9), diz o Senhor a uma comunidade cristã que, ao contrário de outras, não tinha qualquer relevância ou recurso e estava exposta à violência e ao desprezo: «tens pouca força, mas […] farei que […] venham prostrar-se a teus pés» (Ap 3, 8-9). Este texto recorda as palavras do cântico de Maria: «Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias» (Lc 1, 52-53).

2. A declaração de amor do Apocalipse remete para o mistério insondável que foi aprofundado pelo Papa Francisco na Encíclica Dilexit nos sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus. Nela, admirámos o modo como Jesus se identifica «com os últimos da sociedade» e como, através do seu amor doado até ao fim, mostra a dignidade de cada ser humano, sobretudo quando é «mais fraco, mísero e sofredor». Contemplar o amor de Cristo «ajuda-nos a prestar mais atenção ao sofrimento e às necessidades dos outros, e torna-nos suficientemente fortes para participar na sua obra de libertação, como instrumentos de difusão do seu amor».

3. Por esta razão, em continuidade com a Encíclica Dilexit nos, o Papa Francisco, nos últimos meses da sua vida, estava a preparar uma Exortação Apostólica sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres, intitulada Dilexi te, imaginando Cristo a dirigir-se a cada um deles dizendo: Tens pouca força, pouco poder, mas «Eu te amei» ( Ap 3, 9). Ao receber como herança este projeto, sinto-me feliz ao assumi-lo como meu – acrescentando algumas reflexões – e ao apresentá-lo no início do meu pontificado, partilhando o desejo do meu amado Predecessor de que todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres. Na verdade, também eu considero necessário insistir neste caminho de santificação, porque no «apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas, com os quais se procura configurar todo o santo».

Como dito na postagem introdutória, o papa Leão XIV não demora a dizer a que veio na exortação apostólica Dilexi te. Trata da identificação entre Jesus Cristo e os mais frágeis em nossa sociedade. Não são poucas palavras empregadas para falar desses: “não tinha qualquer relevância”, “exposta à violência e ao desprezo”, “tens pouca força”, “humildes”, “famintos”, “os últimos da sociedade”, “mais fraco, mísero e sofredor” etc. Muitas dessas palavras foram dirigidas por Deus à comunidade cristã de Filadélfia no Apocalipse de São João (3,8-9), proferidas por Nossa Senhora em seu Cântico (Lc 1,46-55) ou escritas pelo papa Francisco na encíclica Dilexit nos e na exortação apostólica Gaudete et exsultate.

Contudo, não se trata de mera compaixão, de um apiedar-se do sofrimento alheio. A afirmação mais eloquente desse trecho é:

Contemplar o amor de Cristo «ajuda-nos a prestar mais atenção ao sofrimento e às necessidades dos outros, e torna-nos suficientemente fortes para participar na sua obra de libertação, como instrumentos de difusão do seu amor».

A citação remete à já mencionada encíclica Dilexit nos, onde o papa Francisco foi ainda além: “se contemplarmos a entrega de Cristo por todos, torna-se inevitável perguntarmo-nos por que razão não somos capazes de dar a nossa vida pelos outros” (n. 171). A isso, Francisco acrescentou uma citação da Primeira Carta de São João: “Ele, Jesus, deu a sua vida por nós; assim também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos” (1Jo 3,16).

Imagem de Jesus Cristo representado como um sem-teto na Catedral de Buenos Aires. Foto: Leandro Arndt.

Além desse questionamento de nosso próprio compromisso com o próximo, o papa ainda revela que esse caminho de ação e contemplação é mesmo um “caminho de santificação”. Novamente citando o papa Francisco, e mesmo explicando que a Dilexi te já estava sendo redigida por ele quando faleceu, Leão insiste na necessidade de se estar efetivamente próximo dos pobres e reconhecer neles o próprio Cristo.

Aí se encontra, indubitavelmente, a espiritualidade da Teologia da Libertação. Uma espiritualidade que se converte em ação – a “opção preferencial pelos pobres”, expressão surgida na América Latina e ensinada ao mundo inteiro, será citada textualmente inúmeras vezes ao longo do texto. Frei Betto, aliás, afirmou que o papa peruano-americano “consagrou a Teologia da Libertação” nessa exortação apostólica. Mais adiante, aliás, o próprio papa fará isso quase literalmente (n. 98).