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Conversando com Leandro nº 3 – Guerra na Ucrânia

Nessa terceira edição de Conversando com Leandro, Leandro Fonseca e Leandro Arndt abordam o massacre de Bucha, o ataque com mísseis a Kramatorsk, a situação em Mariupol.

Sobre Bucha, retomou-se o artigo publicado aqui sobre a cronologia do massacre a partir de fontes ucranianas e ocidentais. Essa cronologia, a partir de informações divulgadas pelo próprio Estado ucraniano e por mídias que têm apoiado a posição ucraniana, demonstra a ocorrência de uma “depuração”, uma “operação de limpeza” da cidade contra “sabotadores e cúmplices dos russos”, o que pode ser entendido no mesmo sentido da “limpeza” genocida promovida pela Organização dos Nacionalistas Ucranianos. Isso, contudo, sem esconder, nem esquecer os crimes de guerra que os dois lados têm cometido na atual guerra.

Sobre Kramatorsk, foram evidenciados os meios disponíveis para investigação do incidente que matou dezenas de civis nessa cidade, pertencente ao oblast de Donetsk. Especialmente, a possibilidade de rastreio da origem do míssil – de um modelo que hoje não é mais operado pela Rússia, embora exista a possibilidade de tê-lo em estoque, mas que é operado e foi utilizado muitas vezes nesta guerra pela Ucrânia. Acima de tudo, nessa questão é preciso ter uma investigação ampla e adequada.

Também foram abordados temas como as sanções contra a Rússia e a expectativa de novos confrontos no Donbas.

Por fim, foi analisado o avanço russo na cidade de Mariupol, no sul do oblast de Donetsk, bastião do Batalhão de Azov (organização neonazista pertencente à Guarda Nacional da Ucrânia).

Cronologia do massacre de Bucha segundo fontes ucranianas e ocidentais

No último sábado (02/04), apareceram cenas terríveis de cadáveres em ruas de Bucha, a noroeste de Kiev, na Ucrânia. Os dois lados do conflito têm praticado crimes de guerra, mas o foco desta cronologia é somente um dos mais terríveis e mortíferos eventos até agora: o massacre de Bucha. Para isso, serão usadas somente fontes ucranianas e ocidentais.

10 de março de 2022

Imagens de satélite mostram uma vala comum aberta pelas autoridades ucranianas em Bucha, junto à igreja de Santo André Apóstolo e de Todos os Santos. Em 13 de março, é divulgado vídeo de pessoal ucraniano depositando 67 corpos nessa vala, o que é noticiado no dia seguinte pela emissora britânica BBC.

Imagens de satélite dos dias 10 e 31 de março de 2022 mostrando a vala comum aberta junto à igreja de Santo André Apóstolo e de Todos os Santos em Butcha, Ucrânia.

31 de março de 2022

No dia 30 de março, as forças russas desocuparam a cidade, conforme adiantado pelo ministro da defesa desse país. No dia seguinte, o governo ucraniano retoma a localidade, o que é comemorado pelo prefeito local, Anatoliy Fedoruk, em vídeo divulgado no Facebook – “uma grande vitória das nossas forças armadas”, disse ele, sem menção às cenas que seriam divulgadas depois.

1º de abril de 2022

No dia 1º de abril, o Batalhão Especial Auxiliar Safári, da Polícia Nacional da Ucrânia, realizou uma “operação de limpeza em Bucha de sabotadores e cúmplices da Rússia“. “A polícia faz tudo para restaurar a lei e a ordem no território liberado, de modo a que os habitantes possam retornar a sua cidade tão logo quanto possível”. Nenhuma menção aos cadáveres até então.

Atualização: no dia 2 de abril, a Polícia Nacional da Ucrânia divulgou vídeo confirmando a operação de “limpeza”. A palavra utilizada (зачистка) significa “limpeza, expurgo, depuração” – sendo que a partícula “за” adiciona ênfase, algo como “depuração completa”.

2 de abril de 2022

No dia seguinte, 2 de abril, pela primeira vez aparecem as imagens de corpos espalhados pela cidade de Bucha. Quem tiver interesse nas imagens, pode ver aqui e aqui, por exemplo. Mídias ucranianas dizem ser “os primeiros vídeos da cidade”. Nesse mesmo dia, o prefeito diz à Agência de Notícias AFP que as autoridades ucranianas “já sepultaram 280 pessoas em valas comuns”, sem cuidado com a investigação do massacre.

Conclusão

Esse massacre especificamente é somente um dos crimes cometidos nessa guerra. Não se trata apenas de uma invasão ilegal da Rússia em território ucraniano. Há notícias de outros crimes de guerra cometidos pelos dois lados, tais como atirar em prisioneiros rendidos e bombardear locais protegidos, como escolas, hospitais e um galpão identificado com o símbolo protegido da cruz vermelha – para o direito internacional, como exposto ontem pela Profª Drª Priscila Caneparo no segundo episódio de Conversando com Leandro, não importa nem mesmo que tais locais estejam sendo usados pelas forças inimigas, eles continuam sendo protegidos pelos tratados internacionais.

É essencial, para a proteção da população civil em locais de guerra, inclusive na Ucrânia, e para a adequada punição dos responsáveis, que sejam feitas perícias criminais – no caso do massacre de Bucha, determinando o momento e as condições das mortes, o que deixaria fora de dúvidas a autoria desse ato. Por outro lado, as autoridades ucranianas não tiveram essa precaução. Da parte da Rússia, sua implicação no assassinato da prefeita de Motyjin e de sua família parece mais clara.

Contudo, esse massacre em especial remete à ideologia da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), lembrada por sua colaboração com os nazistas, mas também responsável pelo massacre de poloneses, por exemplo. Os líderes dessa organização, tais como Yevgen Konovalets e Stepan Bandera, se tornaram os novos heróis da Ucrânia em contraposição aos antigos heróis dos tempos soviéticos. São homenageados das ruas de Lviv à escola militar do Batalhão de Azov. É uma ideologia que tem por objetivo realizar uma “operação de limpeza contra todos os inimigos da raça“, que “não pretende deixar “nem uma polegada de terra ucraniana nas mãos de inimigos e estrangeiros”. Ao que tudo indica, essa ideologia se torna cada dia mais uma prática.

(Foto em destaque: torre de tanque de guerra no segundo andar de construção em Tchernigiv, Ucrânia. Foto: Sergio Olmos.)

Ucrânia: Rússia anuncia objetivos cumpridos, Kiev apresenta propostas

Hoje (29), o ministro da defesa russo, Sergey Shoygu anunciou que seu país concluiu a primeira fase da guerra na Ucrânia, e que passará a focar seus esforços na região de Donbas. Logo em seguida, porém, as negociações de paz que ocorriam na Turquia foram interrompidas pelo lado russo. Depois disso, a Ucrânia apresentou suas propostas:

  • A Ucrânia não participaria de nenhum bloco com outras nações, e permaneceria como Estado não-nuclear.
  • Haveria garantias estritas e vinculantes de países incluindo o Reino unido, a China, os EUA, a Turquia, a França, o Canadá, a Itália, a Polônia e Israel, que concordariam em proteger essa Ucrânia neutra em caso de ataque. Exceto no Donbas e na Crimeia.
  • A Ucrânia não ingressaria em nenhuma aliança militar, e exercícios militares internacionais requereriam o consentimento dos estados garantidores.
  • A situação da Crimeia seria decidida após 15 anos de consultas.
  • O futuro das regiões autonomistas no Donbas seria decidido à parte pelos presidentes da Ucrânia e da Rússia.

Contudo, a Ucrânia condicionou a assinatura de um acordo ao retorno prévio das forças às posições ocupadas no dia 23 de fevereiro, antes da invasão russa.

Quanto ao pronunciamento de Sergey Shoygu, ele afirmou que “o potencial de combate das Forças Armadas da Ucrânia foi significativamente reduzido, o que permite concentrar as principais atenções e os principais esforços na consecução do objetivo principal: a libertação do Donbass”. A partir de agora, haveria a redução da presença de tropas russas no entorno de Kiev e Tchernigiv, cidades próximas à Bielorrússia.

As perdas ucranianas anunciadas hoje pela Rússia foram:

  • 123 de 152 aviões;
  • 77 de 149 helicópteros;
  • 152 de 180 equipamentos de defesa antiaérea de médio e longo alcance.

(Foto em destaque: Sergey Shoygu. Ministério da Defesa da Rússia.)

Ucrânia e Rússia mais perto de um acordo

Segundo afirmado hoje pelo presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan – que vem atuando como mediador entre seus homólogos russo e ucraniano –, Rússia e Ucrânia estariam mais próximos de um acordo. O jornalista Ragip Soylu, há algum entendimento sobre quatro dos seis tópicos sobre a mesa: OTAN, desarmamento parcial, segurança coletiva e língua russa. Contudo, dois assuntos seguem em aberto: Crimeia e Donbas.

A Crimeia, pertencente à Rússia desde que o canato tártaro subsidiário do Império Turco-Otomano foi derrotado no final do século XVIII e defendida na Segunda Guerra da Crimeia contra os turco-otomanos apoiados por França, Inglaterra, Sardenha e Áustria – isso logo antes de importantes mudanças sociais ocorridas no Império Russo, como o fim da servidão em 1861. Em 1954, contudo, o ucraniano Nikita Khruschev, ex-presidente da República Socialista Soviética da Ucrânia e então secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, transferiu a República Socialista Soviética Autônoma da Crimeia do território russo para o território ucraniano em nome da “amizade entre os povos”.

Entre 1961 e 1971, foi construído o Canal da Crimeia, que levava água do rio Dniepr (que corta a Ucrânia ao meio) até o limite oriental da Península da Crimeia. Contudo, em 2014, após a reanexação da Crimeia pela Rússia, a Ucrânia construiu um dique a 16Km da fronteira, o qual impediu o fluxo da água até a Crimeia, impondo um estado de grande escassez hídrica na região. Esse dique foi explodido em 26 de fevereiro deste ano e a água voltou a fluir para a península. É de se esperar, portanto, que a Rússia resista em devolver esse território.

Já a região do Donbas, que em sua maioria fala a língua russa (proibida no ensino e nos atos de governo ucranianos desde 2019), foi reconhecida pela Rússia como independente da Ucrânia no último dia 21 de fevereiro, após quase oito anos de guerra civil e o fracasso dos acordos de Minsk – as elites políticas da região centro-ocidental da Ucrânia sempre barraram a autonomia territorial dos oblasti de Donetsk e Lugansk prevista nos acordos.

Atualização

Segundo o ministro de negócios estrangeiros da Ucrânia, Dmitro Kuleba, não há acordo para o uso do russo como segunda língua oficial na Ucrânia. “A única língua estatal na Ucrânia é e será o ucraniano.”

(Imagem em destaque: dique no Canal da Crimeia é explodido pela Rússia na guerra contra a Ucrânia)