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VÍDEO: para entender o conflito EUA x Irã

Como já foi dito no vídeo do dia 1º de janeiro, Estados Unidos e Irã estão em uma escalada de violência recíproca nos territórios do Iraque e da Síria. Esse vídeo ajuda a entender a história por trás desse acontecimento e qual era o papel do general Qassem Suleimani, morto há duas noites, nos conflitos que assolam a Síria e o Iraque.

Que Deus nos dê a sua paz!

Foto em destaque: General Qassem Suleimani (Sayyed Shahab-o- Din Vajedi via Wikimedia Commons).

EUA entregam território sírio à Turquia

Hoje (17), Estados Unidos da América e Turquia anunciaram um acordo que resultaria na retirada de sanções americanas contra o governo turco. Foi anunciado um suposto cessar-fogo na região noroeste da República Árabe da Síria, que já não se confirma devido ao assalto continuado dos turcos à cidade fronteiriça de Ras al Ayn. Os termos do acordo, a respeito do qual não foram consultados nem o governo sírio, nem as Forças Democráticas da Síria (grupo que engloba curdos, siríacos, assírios e árabes), dizem que as forças armadas turcas imporão uma “zona de segurança” na região. Dessa forma, o que ficou do acordo é a concordância dos EUA com a ocupação de todo o norte da Síria pela Turquia. Abaixo, o texto do acordo:

Acordo turco-americano para ocupação do nordeste da Síria. Fonte: Jeff Seldin, correspondente da Voz da América.

Curdos e governo sírio entram em acordo

Sírios comemoram entrada do exército governamental em bairros de Hasaka. Imagem da agência SANA.

Na tentativa de barrar o avanço da Turquia e dos rebeldes apoiados pelo estrangeiro, as Forças Democráticas Sírias (FDS) e o governo sírio entraram hoje (13) em um acordo para que as tropas governamentais protejam a fronteira com a da Síria com a Turquia. Assim, as populações curdas e cristãs serão protegidas dos ataques do governo turco e dos rebeldes wahabitas, da mesma vertente do islamismo que deu origem ao Estado Islâmico. Houve comemoraçãoem diversas cidades, como Hasaka e Qamishli. A ofensiva turca começou após os Estados Unidos da América retirarem seu apoio aos curdos na fronteira sírio-turca.

Turquia ataca curdos sírios novamente

Tropas turcas e terroristas da oposição síria na fronteira com a Síria, com artilharia pesada. Foto via Twitter de @SaadEdin_souma.

A Turquia está pronta para invadir novamente a Síria e atacar as forças curdas. A justificativa, como sempre, é o vínculo a grupos curdos que fazem oposição ao regime turco, classificados como terroristas pelos turcos. A operação contará com o apoio dos terroristas sunitas que fazem oposição ao governo sírio.

A operação, anunciada há vários meses, vinha sendo adiada devido à presença de tropas dos Estados Unidos no nordeste da Síria em apoio às forças curdas que combatem o Estado Islâmico. A essas forças se juntaram também grupos cristãos siríacos e assírios a leste do rio Eufrates.

Ontem, contudo, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a retirada das tropas americanas da fronteira. Hoje, militares curdos e americanos acreditam que a operação terá início nas próximas 24 horas. No meio do caminho, há também locais com tropas governamentais na cidade de Qamishli e nas proximidades de Manbij. (Atualização: após as 10h do dia 9, horário de Brasília, foram registrados os primeiros ataques aéreos e de artilharia pela Turquia nessa operação.)

O temor principal é de que os turcos promovam um genocídio contra os curdos e os cristãos na região. Não será a primeira vez. Para quem quiser conhecer o sofrimento que provocam, vale a pena ler o Diário de Myriam, escrito por Myriam Rowick, uma menina cristã de Alepo, cidade Síria que esteve sitiada pelos terroristas. No Brasil, foi publicado pela editora Darkside.

Nova atualização: a frente al-Nusra (braço da al-Qaeda na Síria) divulgou seu apoio à operação turca.

Ataque turco inicia com dificuldade

Como noticiado há uma semana, o ataque da Turquia aos curdos no noroeste da Síria (província de Afrin) finalmente iniciou no sábado (20). Até o momento, porém, as forças turcomanas têm tido dificuldade de adentrar no território sírio. São rebeldes turcomanos islamitas do chamado Exército Livre Sírio (FSA) apoiados pelo exército e pela aviação do governo turco. O motivo alegado pela Turquia é a expulsão de “terroristas” da fronteira turco-síria e o retorno dos refugiados – isto é, sua expulsão do país turcomano.

Rebeldes turcomanos (FSA) celebram butim. (Foto via Twitter – @op_shield)

Os rebeldes do FSA têm noticiado a ocupação de algumas colinas e festejado o butim – munição e armamento tomados dos curdos. Por outro lado, as chamadas Forças Democráticas Sírias (SDF, dominadas pelos curdos e com participação cristã e árabe) têm dito que reconquistaram diversos desses lugares. Os turcomanos ainda tentam abrir novas frentes na fronteira.

Opinião de Visão Católica

A Turquia vem dizendo que a ação encontraria respaldo no direito internacional, mas não houve provocação curda ou síria anterior, não sendo, portanto, resposta a um ataque. Por outro lado o apoio é dado aos mesmos rebeldes turcomanos que mataram um aviador russo após este se ejetar do avião que a Turquia abateu, em absurda violação do direito humanitário. Isso fortalece a posição deles na guerra civil travada na Síria, influindo diretamente na política da nação árabe. Aliás, a ênfase no apoio aos rebeldes turcomanos, aliada ao histórico de repressão aos curdos e de genocídio dos armênios provoca preocupações de que as motivações possam ir muito além da segurança da fronteira e do retorno dos refugiados.

É preciso dizer, claro, que a mera dominação curda não pode substituir a dominação árabe (do governo de Bashar al Assad) ou turcomana. A relação deles com as outras minorias étnico-religiosas, inclusive os cristãos, não é totalmente pacífica. Contudo, as SDF são o único agrupamento que surgiu para autodefesa contra o Estado Islâmico e, mesmo sendo apoiadas pelos Estados Unidos, têm se mostrado abertas ao diálogo e à paz.

Síria: Turquia prestes a atacar curdos

Mobilização turca ao norte da região dominada pelos curdos na Síria. (Foto via Mete Sohtaoğlu)

A situação está prestes a se deteriorar no noroeste da Síria, região hoje dominada pelas Forças Democráticas da Síria (SDF), lideradas pelos curdos. A Turquia vem enviando crescentes quantidades de material bélico, e vem discursando no sentido de criar uma “faixa segura” na fronteira com a Síria, isto é, em expulsar os militantes das Unidades de Proteção Popular curdas (YPG), ligadas ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), proscrito na Turquia.

Noroeste da Síria. Amarelo: SDF; vermelho: governo sírio; verde: ocupação turca e rebeldes apoiados pela Turquia. (Mapa: Live Universal Awaranes Map)

A região em questão é limitada ao norte e ao oeste pela Turquia, e esta já ocupou os limites sul e leste, a pretexto de garantir um acordo de cessar-fogo (no sul) e de expulsar o Estado Islâmico (no leste). Resta apenas uma divisa com o governo sírio a sudeste, único espaço para comunicação e comércio com o resto do país. Essa é a mesma região em que foi derrubado um avião russo que atacava posições de rebeldes turcomanos islamitas em 2015.

Mobilização turca a oeste da Síria. (Foto via Live Universal Awaranes Map)

O Partido Islâmico do Turquestão, aliás, é membro-fundador do Comitê de Libertação do Levante (HTS), antes conhecido como Frente Al Nusra ou Al Qaeda na Síria, que muito recentemente rompeu com a Al Qaeda e prendeu alguns de seus dirigentes. Sob a bandeira das SDF combatem, além dos curdos, grupos árabes e cristãos assírios e siríacos.

Síria e Iraque: notícias do front

Muralha de Nínive em Mossul, no Iraque.

Pouco se tem falado da guerra contra o Estado Islâmico ultimamente. No entanto, as novidades são muitas, a maioria das quais indica o enfraquecimento desse grupo terrorista.

Mossul, Iraque

Interior da mesquita onde fica o túmulo do profeta Jonas – foto tirada por um integrante das forças de contraterrorismo iraquianas.

A antiga cidade de Nínive, onde atuou o profeta Jonas, já é em grande parte dominada pelo governo iraquiano. Na última semana, o avanço foi esmagador, e toda a margem esquerda do rio Tigre já foi liberada.

Entrada para o túmulo do profeta Jonas na região histórica de Mossul (Nínive).

O governo anunciou oficialmente a liberação da região leste da cidade. A área histórica, incluindo o túmulo do profeta Jonas, está nessa região. contudo, os danos sofridos a essa construção histórica.

Deir Ez Zor, Síria

A cidade síria, praticamente desconhecida por aqui, é um enclave das forças do governo no meio do território do Estado islâmico. infelizmente, os terroristas nos últimos dias lançaram uma ofensiva na região, e conseguiram cortar a ligação entre a base aérea e a cidade. Eles hoje dominam elevações importantes e colocaram as forças armadas da Síria na defensiva.

Raqqa, Síria

Raqqa é a capital do Estado Islâmico, e também o nome de uma província na Síria. Grande parte do território já foi liberada por forças curdas, siríacas e árabes. 236 vilas foram liberadas desde o início da ofensiva, noticiado aqui no Visão Católica. 260 combatentes do Estado Islâmico foram mortos, 18 foram presos. 42 membros das chamadas “Forças Democráticas da Síria” e 3 do Conselho Militar Siríaco foram mortos. Essas forças estão agora a cerca de 25 quilômetros da capital do califado.

Homs, Síria

Na Província de Homs, onde o governo sírio havia perdido território para o Estado Islâmico (inclusive a cidade de Palmira, que havia sido recentemente reconqusitada), as forças armadas sírias avançaram 7Km na última semana, restando outros 35 até Palmira.

Começa ofensiva contra capital do Estado Islâmico

Forças especiais americanas na batalha por Raca, na Síria. (Foto: isis.liveuamap.com)
Forças especiais americanas na batalha por Raca, na Síria. (Foto: isis.liveuamap.com)

Após dois anos de proclamação do califado do Estado Islâmico (EI), profundamente contestado pelos próprios muçulmanos sunitas, que dizem liderar, o Estado Islâmico se vê na defensiva nas duas principais cidades que controla: Mossul (antiga Nínive, onde atuou o profeta Jonas) e Raca. A primeira ofensiva, pelo controle de Mossul, e que já dura semanas, visa a retomar o controle da maior cidade do califado pelo governo iraquiano com ajuda de forças internacionais, milícias xiitas e curdas. Na segunda ofensiva, iniciada há horas, participam apenas forças da oposição síria e da autoproclamada “coalizão” liderada pelos EUA. Enquanto isso, as forças armadas sírias avançam na província de Homs.

Civis que fugiam para o sul foram alvo do Estado Islâmico na batalha por Mossul. (Foto: isis.liveuamap.com)
Civis que fugiam para o sul foram alvo do Estado Islâmico na batalha por Mossul. (Foto: isis.liveuamap.com)

No centro das batalhas, como sempre, estão os civis. Em Mossul, os que fugiam da batalha foram ontem alvo de um atentado terrorista do EI, que deixou dezenas de vítimas. Eles rumavam para o sul, em direção ao território já conquistado pelas forças do governo iraquiano.

Forças iraquianas (território em vermelho) avançam sobre Mossul com apoio dos curdos (em amarelo), xiitas e forças internacionais. (Fonte: isis.liveuamap.com)
Forças iraquianas (território em vermelho) avançam sobre Mossul com apoio dos curdos (em amarelo), xiitas e forças internacionais. (Fonte: isis.liveuamap.com)

O controle territorial é fundamental para o conceito islâmico de califado. Conquistadas as duas cidades, o EI perderá sua capital e sua maior cidade, justamente o local onde o califado foi proclamado. Se as vitórias de 2014 ajudaram a recrutar estrangeiros para sua guerra, o EI se vê agora enfrentando sucessivas derrotas, na eminência de perder o controle sobre suas maiores glórias: a capital de onde administra seu território e sua maior conquista militar, símbolo de seu antigo poderio. Há tempos o califado foi derrotado também em Dabiq, cidade simbólica para sua ideologia, que busca levar à “batalha final”, que segundo testemunhas Maomé teria predito que aconteceria naquele lugar antes do fim dos tempos.

Helicópteros do governo sírio fotografados pelo Estado Islâmico na província de Homs. (Foto: isis.liveuamap.com)
Helicópteros do governo sírio fotografados pelo Estado Islâmico na província de Homs. (Foto: isis.liveuamap.com)

Guerra no Oriente Médio recrudesce

A guerra no Oriente Médio (especialmente na Síria) tem recrudescido. No início deste mês, com o início de uma ofensiva do governo sírio para tomar a cidade de Alepo, dezenas de milhares de habitantes fugiram rumo à Turquia, encontrando a fronteira fechada pelos turcos. Um pouco antes, haviam fracassado as negociações de paz, diante da recusa de participação pelos rebeldes. No último sábado (13), doze picapes armadas com metralhadoras pesadas entraram na Síria a partir da Turquia, em uma operação para entrega de suprimentos aos rebeldes – a Síria denunciou a presença de militares turcos, o que foi negado pela Turquia. Também Turquia e Rússia trocam acusações mútuas desde a derrubada de um avião russo que atacava rebeldes na Síria. A região onde o avião foi abatido é povoada por população turcomana, que a Turquia diz estar sendo massacrada (e ameaça agir). No dia 15, mais um hospital da organização Médicos Sem Fronteiras foi bombardeado. As forças envolvidas na guerra trocam acusações entre si (EUA acusam a Rússia e a Síria, que acusam os EUA). No mesmo dia, aviões turcos invadiram o espaço aéreo grego sobre o mar Egeu, perto de ilhas cuja soberania é disputada entre os dois países. Desde julho de 2015, a Turquia vem bombardeando as forças curdas, que combatem com sucesso o Estado Islâmico, com a desculpa de combater terroristas após atentados que vitimaram a população curda e seus aliados internos na Turquia. Os bombardeios foram intensificados desde o sábado (13) – e, na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas da segunda-feira (15), a Turquia foi fortemente criticada pela Rússia, pelo Chipre e pela Síria. Na reunião do dia seguinte (terça, 16), a Turquia foi instada a retirar suas tropas do território iraquiano, “cuja presença mina a soberania do Iraque”. Essa atuação turca contra os curdos, assim como a facilidade que os rebeldes (inclusive o Estado Islâmico) têm para cruzar a fronteira turca com armamentos e tropas leva facilmente à conclusão de que, no fim das contas, a Turquia (sede do último califado) apóia o Estado Islâmico (que proclamou um novo califado). No Iêmen, 14 militares foram mortos por um suicida do Estado Islâmico ontem (17). A situação iemenita, em que Arábia Saudita e Irã, como expoentes do sunismo e do xiismo, se confrontam, contando ainda com a presença da Al Qaeda e do Estado Islâmico, também foi alvo de discussão no conselho de segurança no dia 16. Em Ancara, capital turca, ao menos 5 pessoas morreram e 10 ficaram feridas ontem (17) em uma explosão que teria como alvo instalações militares.

Na Síria, embora nenhum lado possa se declarar inocente de crimes contra a humanidade, chama a atenção a declaração do vigário apostólico de Alepo dos Latinos, dom Georges Abou Khazen, alertando sobre a “‘frente moderada’, que, por ser considerada ‘moderada’, é protegida, defendida e armada [pelos EUA e aliados]. Na realidade, eles não são diferentes em nada dos outros jihadistas [Estado Islâmico e Frente Al Nusra], a não ser no nome”.

Opinião de Visão Católica

Esse extenso relatório demonstra o acerto do papa Francisco e do patriarca Kiril em sua preocupação com a possibilidade de o conflito se tornar uma nova guerra mundial. Na declaração conjunta que firmaram no último dia 12, exortam à busca de uma convivência pacífica e do diálogo inter-religioso. Pedem o auxílio para os cristãos perseguidos e a ação da comunidade internacional. Pedem pela libertação dos metropolitas de Alepo, Paulo e João Ibrahim, e suplicam aos céus para que o Criador proteja sua criação da destruição.

Eis o trecho mais significativo com relação a isso:

7. Determinados a realizar tudo o que seja necessário para superar as divergências históricas que herdámos, queremos unir os nossos esforços para testemunhar o Evangelho de Cristo e o património comum da Igreja do primeiro milénio, respondendo em conjunto aos desafios do mundo contemporâneo. Ortodoxos e católicos devem aprender a dar um testemunho concorde da verdade, em áreas onde isso seja possível e necessário. A civilização humana entrou num período de mudança epocal. A nossa consciência cristã e a nossa responsabilidade pastoral não nos permitem ficar inertes perante os desafios que requerem uma resposta comum.

8. O nosso olhar dirige-se, em primeiro lugar, para as regiões do mundo onde os cristãos são vítimas de perseguição. Em muitos países do Médio Oriente e do Norte de África, os nossos irmãos e irmãs em Cristo vêem exterminadas as suas famílias, aldeias e cidades inteiras. As suas igrejas são barbaramente devastadas e saqueadas; os seus objectos sagrados profanados, os seus monumentos destruídos. Na Síria, no Iraque e noutros países do Médio Oriente, constatamos, com amargura, o êxodo maciço dos cristãos da terra onde começou a espalhar-se a nossa fé e onde eles viveram, desde o tempo dos apóstolos, em conjunto com outras comunidades religiosas.

9. Pedimos a acção urgente da comunidade internacional para prevenir nova expulsão dos cristãos do Médio Oriente. Ao levantar a voz em defesa dos cristãos perseguidos, queremos expressar a nossa compaixão pelas tribulações sofridas pelos fiéis doutras tradições religiosas, também eles vítimas da guerra civil, do caos e da violência terrorista.

10. Na Síria e no Iraque, a violência já causou milhares de vítimas, deixando milhões de pessoas sem casa nem meios de subsistência. Exortamos a comunidade internacional a unir-se para pôr termo à violência e ao terrorismo e, ao mesmo tempo, a contribuir através do diálogo para um rápido restabelecimento da paz civil. É essencial garantir uma ajuda humanitária em larga escala às populações martirizadas e a tantos refugiados nos países vizinhos.

Pedimos a quantos possam influir sobre o destino das pessoas raptadas, entre as quais se contam os Metropolitas de Alepo, Paulo e João Ibrahim, sequestrados no mês de Abril de 2013, que façam tudo o que é necessário para a sua rápida libertação.

11. Elevamos as nossas súplicas a Cristo, Salvador do mundo, pelo restabelecimento da paz no Médio Oriente, que é «fruto da justiça» (Is 32, 17), a fim de que se reforce a convivência fraterna entre as várias populações, as Igrejas e as religiões lá presentes, pelo regresso dos refugiados às suas casas, a cura dos feridos e o repouso da alma dos inocentes que morreram.

Com um ardente apelo, dirigimo-nos a todas as partes que possam estar envolvidas nos conflitos pedindo-lhes que dêem prova de boa vontade e se sentem à mesa das negociações. Ao mesmo tempo, é preciso que a comunidade internacional faça todos os esforços possíveis para pôr fim ao terrorismo valendo-se de acções comuns, conjuntas e coordenadas. Apelamos a todos os países envolvidos na luta contra o terrorismo, para que actuem de maneira responsável e prudente. Exortamos todos os cristãos e todos os crentes em Deus a suplicarem, fervorosamente, ao Criador providente do mundo que proteja a sua criação da destruição e não permita uma nova guerra mundial. Para que a paz seja duradoura e esperançosa, são necessários esforços específicos tendentes a redescobrir os valores comuns que nos unem, fundados no Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.

12. Curvamo-nos perante o martírio daqueles que, à custa da própria vida, testemunham a verdade do Evangelho, preferindo a morte à apostasia de Cristo. Acreditamos que estes mártires do nosso tempo, pertencentes a várias Igrejas mas unidos por uma tribulação comum, são um penhor da unidade dos cristãos. É a vós, que sofreis por Cristo, que se dirige a palavra do Apóstolo: «Caríssimos, (…) alegrai-vos, pois assim como participais dos padecimentos de Cristo, assim também rejubilareis de alegria na altura da revelação da sua glória» (1 Ped 4, 12-13).

13. Nesta época preocupante, é indispensável o diálogo inter-religioso. As diferenças na compreensão das verdades religiosas não devem impedir que pessoas de crenças diversas vivam em paz e harmonia. Nas circunstâncias actuais, os líderes religiosos têm a responsabilidade particular de educar os seus fiéis num espírito respeitador das convicções daqueles que pertencem a outras tradições religiosas. São absolutamente inaceitáveis as tentativas de justificar acções criminosas com slôganes religiosos. Nenhum crime pode ser cometido em nome de Deus, «porque Deus não é um Deus de desordem, mas de paz» (1 Cor 14, 33)

(Imagem em destaque: tanques em frente a mesquita em Azaz, ao norte de Alepo, Síria. Foto: Christiaan Triebert.)

Rússia ajuda a libertar cidades do EI; Turquia derruba avião russo

Avião militar russo abatido pela Turquia cai na Síria.
Avião militar russo abatido pela Turquia cai na Síria.

O exército da Síria retomou, com ajuda da aviação militar russa, as cidades de Mheen e Hawwarin, até então sob domínio do Estado Islâmico (EI) — a informação foi divulgada ontem (23) pelo Observatório Sírio dos Direitos Humanos. Hoje (24), a Turquia derrubou um avião militar russo modelo SU-24, que caiu perto de Idlib, na Síria, cidade que fica a cerca de 25Km da fronteira turco-síria. Segundo o governo turco, teria havido violação do espaço aéreo da Turquia; a Rússia afirma que a aeronave permaneceu todo o tempo no espaço aéreo sírio, onde, afinal, caiu. A Turquia pediu a criação de uma zona de exclusão aérea na fronteira entre Síria e Turquia, o que inviabilizaria ataques aéreos ao Estado Islâmico na região, incluindo a cidade de Dabiq, onde o EI espera haver uma intervenção divina para expandir seu califado.

Mapa da região onde a Turquia derrubou o avião militar russo. Em vermelho, a fronteira turco-síria. A cidade de Idlib em cujas cercanias o avião caiu, fica a cerca de 25Km da Turquia. Fonte: Google Maps.
Mapa da região onde a Turquia derrubou o avião militar russo. Em vermelho, a fronteira turco-síria. A cidade de Idlib (marca vermelha) em cujas cercanias o avião caiu, fica a cerca de 25Km da Turquia. Clique na imagem para ampliar. Fonte: Google Maps.

Embora a Rússia tenha tomado partido do governo de Bashar al-Assad, atacando também grupos rebeldes não alinhados ao Estado Islâmico, a derrubada do avião russo no Egito por partidários do EI levou a uma inflexão em sua estratégia, intensificando os ataques diretos ao território controlado pelo califado. A região onde caiu o avião russo, porém, é controlada por grupos que se opõem a Assad, mas não pertencem ao EI. Um dos tripulantes da aeronave teria sido assassinado por esses rebeldes.

“A perda de hoje é uma facada nas costas que foi dada pelos cúmplices dos terroristas”, disse o presidente russo, Vladimir Putin, em referência à Turquia. Disse ainda que “os eventos trágicos de hoje vão ter consequências sérias nas relações russo-turcas” e que “nosso avião, nossos pilotos, não ameaçavam a Turquia”.

Opinião de Visão Católica

Não é a primeira vez que a Turquia ataca forças que se opõem ao Estado Islâmico. Nesse ano mesmo, após um ataque terrorista contra curdos e apoiadores da causa curda na Turquia, esse país bombardeou o curdos na Síria, a pretexto de combater o terrorismo. Os curdos, porém, não eram apenas vítimas, mas são um dos principais grupos opositores do EI. Na ocasião, Visão Católica publicou Turquia ataca os inimigos do Estado Islâmico.

A emergência do Estado Islâmico só foi possível graças à desagregação das sociedades iraquiana e síria após a invasão americana do Iraque em 2003 e a promoção da mal chamada “Primavera Árabe” (2010-2011) pelas potências reunidas na OTAN. Nesses lugares, em meio à crise, à desagregação e à desesperança, frutificou um movimento messiânico islamista, que procura provocar uma “batalha final” em Dabiq, na Síria, em que uma intervenção divina salvaria as tropas muçulmanas contra “Roma”, e iniciaria a expansão final do califado até que Jesus voltasse — os muçulmanos consideram Jesus um mero profeta.

Tendo origem na desagregação social, a batalha “final” contra o EI só poderá acontecer quando as sociedades iraquiana e síria voltarem a se reunir como uma comunidade. Por isso, é preciso levar em consideração os governos locais, que têm apoio de parcela considerável da população, mas também os grupos rebeldes que não procurarem implementar suas próprias visões de califado ou de submissão das demais parcelas da população. Uma vitória militar, mesmo sendo uma etapa necessária, não chegará a acabar com o pavio que incendiou o Levante. É preciso reconciliação e a harmonia social, em que cada povo, religião ou estrato social tenha voz e seja ouvido. Isso poderá criar a esperança, que é o verdadeiro antídoto para visões de mundo como a do Estado Islâmico.